Texto escrito originalmente para a palestra "Qual chão aguenta o meu descanso?" ministrada em março de 2021 no Veredas Festival

Acredito que para falar sobre o descanso, é necessário pontuar que

existe uma memória de baleia em meu corpo. As baleias descansam apenas um dos hemisférios do cérebro por vez, pois ficam em alerta para respirar e fugir de predadores. Em especial, as baleias-cachalotes, que mergulham em profundidade, viram a cabeça pra cima e dormem na vertical, assim elas vão subindo devagar em direção à superfície. E existem momentos em que as baleias esquecem que são animais adaptados à vida aquática, por isso, encalham em terra firme. O seu corpo é tão pesado que comprime os próprios órgãos. As baleias só se movem, porque a água sustenta o seu peso.


Qual chão aguenta o meu descanso? Como transformar o descanso de um corpo pesado em não-morte? Como descansar se me sinto sempre em guerra? Sinceramente, eu não sei e nem tenho a intenção de responder essas perguntas, mas elas me provocam e me ajudam a encontrar possibilidades. É como perceber que o descanso não é somente uma linha reta na horizontal, ele também pode existir na vertical, em espirais, em zigue-zague...


Às vezes me vem a imagem do meu corpo flutuando. E enquanto ele é sustentado pelo ar, os pesos vão caindo, despencam do céu como uma chuva muito forte, capaz de criar crateras muito profundas.


E esses pesos não são meus,

os pesos que me ferem não são meus,

o peso do mundo não é meu.


Descanso para transtornar o que me destrói


Escrevo descansado,

descanso a palavra.

Descanso junto com outras gentes que também desejam descansar.

Descanso dentro e fora de mim.

E enquanto eu descanso,

o amor me atravessa.