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Quarentena

microtextos escritos de forma aleatória durante a quarentena

Hoje (8) é aniversário do meu pai, sol em deboche (gêmeos) e ascendente em escorpião. Meu pai me ensinou que o mar era a nossa primeira casa. Meu pai já foi salva-vidas e eu gosto de dizer que isso é lembrança de quando ele era peixe. Tem coisa que às vezes gostaria de ter que é próprio dele: a calma e o bom humor, mas acabei nascendo com uma certa rigidez, apesar do deboche garantido. Meu pai sempre foi muito amoroso, é o tipo de gente que dá abraços e beijos, que solta pipa e faz piada que só ele ri. Ele me ensina o que é viver a força de Exu, mesmo não nomeando. Foi com ele que, no dia 17 de outubro do ano passado, encontrei a concha do mar na esquina de casa. Meu pai me ensina todos os dias a lembrar de quem eu sou, de quem nós somos, de uma maneira muito amorosa. Meu pai guarda um peixe de água salgada no coração dele. Feliz 56 anos! 

Tenho estado muito agitada e desorganizada, o mundo tem me enlouquecido. Ando de um lado para o outro tentando gastar o fogo desordenado, o fogo que quer queimar tudo e todos. Meses atrás me peguei chorando me perguntando se deveria continuar, como continuar estando tão cansada? Como estar menos cansada? Então, lembrei do que o João disse sobre temos pessoas aliadas para nos abraçar e nos acompanhar no fim do mundo, lembrei da Val que me diz todos os dias o quanto o amor é importante (cuidem das suas gostosas), lembrei de especular futuros. Ressuscitei, acredito eu. Ainda desconfio do ato de viver, mas continuo tentando. Hoje, durante o encontro com o NEGDS, lemos “Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo” da Gloria Anzaldúa. “Ponham suas tripas no papel”. Ressuscitei, novamente. Karina me trouxe um chá de ervas e flores coloridas, segundo ela isso me ajudará na conexão com aquilo que está disponível. Aterrar. Pratico o autocuidado que tenho aprendido com a Zona AGBARA, tento lembrar daquilo que me organiza, que me cuida e me abraça. “Sua pele deve ser sensível suficiente para o beijo mais suave e dura o bastante para protegê-la do desdém”. Gosto dessa foto, pois meu cabelo segue o formato do meu corpo - é grande. É enorme. E meu sorriso começa a aparecer, apesar de ser alguém que ri muito nas rodas de conversa, do deboche explicito, não mostro isso em foto. Sempre me incomodou a boca grande, o nariz grande, a bochecha grande, mas agora reconheço os meus traços. Não sou feia como eles disseram. EU TAMBÉM FALO ALTO, MUITO ALTO. E gosto desse não respiro quando escrevo, pois estou agitada, desorganizada. Ainda não tomei o chá de ervas. Thinks I Imagined.

Ontem encontrei o meu primeiro pelo branco. Lembrei que neste ano faço trinta, uma sensação diferente tomou conta de mim (sempre quis ter trinta). Será que em outubro ainda estaremos em isolamento? Talvez seja a oportunidade de encomendar um kit festa para uma comemoração no estilo eremita (quero ter forças para comemorar). Esses dias a Karina contou que sonhou comigo, e eu dizia pra ela que se não mudassemos as perguntas, as respostas continuariam as mesmas, penso que fiz uma viagem astral pra que ela pudesse me lembrar dessa anunciação. O sol entrou em gêmeos, logo a lua nova desperta, uma energia muito dinâmica, viva e frita fez parte do meu dia. Assisti a aula fazendo meu almoço e anotando coisas importantes, incorporando em mim a multiplicidade. Exu se fez presente, nós temos conversado muito. Sonhei que um macaco me abraçava. Desejei não perder de vista o horizonte, como na carta três de paus, e fiz um pacto comigo mesma pra não deixar a violência encobrir a minha vontade de continuar vivendo. You need to be extremely careful about how you let this time shape you.

Te liguei um pouco antes de me sentar para estudar astrologia, disse que sentia muito pelo nosso não encontro de dia das mães. Nós projetamos um almoço mais gostoso pós coronavírus, pós fim do mundo. É a única expectativa que ainda não dissolvi, o de (re)encontrar você, pai e minha irmã. Separei essas fotos e meu coração apertou, e lembrei das vezes que te liguei perguntando como eu era criança. Chorei de saudade, de raiva da minha memória fraca para os assuntos que envolvem a infância. Porém, você e o pai sempre deram um jeito de guardar, de registrar e escrever. Sou grata por isso. Você me ensinou escrever coisas intensas sobre a vida, a dar o meu melhor independente das barreiras e do medo, não podia ser diferente vindo de uma mulher escorpiana que saiu do sertão do Ceará pra essa selva de pedra que é São Paulo. E eu só desejo que seu domingo seja calmo e com o sol amarelo, que a gente possa sobreviver e passar com coragem pela sombra do mundo. Eu te amo muito, muito!

As crises aceleram o meu coração, basta anoitecer e o ar me falta. Preciso abrir os olhos para sobreviver. Sonhei com a morte, alguém precisava da minha autorização para ser enterrado. Acordei com a sensação de espera, nada chegou - pelo menos por enquanto. O ar de hoje estava com fuligem da queimada que ocorreu próximo da linha do trem. Eu sempre sinto muita coisa. Leio atentamente Krenak e Mbembe, leio as notícias sobre o presidente genocida, leio os textos do mestrado, leio coisa nenhuma pra poder continuar. Então, escuto pontos de Obaluaê, canto junto e danço um tipo de raiva-força-cura. Mas, semana passada meu corpo sangrou muito e não consegui dançar. Escuto os espíritos e meus demônios. Fiona Apple lançou um novo álbum. How do you suppose that we've survived?

Acendo uma folha de louro e olho para a lua, é como se eu me lembrasse de todos os segredos. Danço até ficar enjoada de todos os gestos que aprendi. A lua em gêmeos invade a minha cozinha, os meus demônios e as borboletas também.